AMAP ASSOCIAÇÃO MINEIRA DE PSICANÁLISE

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RESENHAS

Antes de começar a fazer terapia, saiba qual escola de pensamento combina mais com você

Psicanálise ou psicoterapia? Há diferença? Qual escola escolher? Linha focal, de resultado rápido ou a que demanda mais tempo? Decisão pelo autoconhecimento exige informação precisa

acesso na integra ou copia e cole
http://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2015/01/25/noticia_saudeplena,152030/antes-de-comecar-a-fazer-terapia-saiba-qual-escola-de-pensamento-comb.shtml

 


Lilian Monteiro - Estado de Minas Publicação:25/01/2015 10:37Atualização:25/01/2015 10:47
 
 (Quinho/Ilustração)
 O ouvir psíquico
Especialistas com abordagem nas escolas Melaine Klein e Carl Gustav Jung dissecam as linhas e exaltam o valor da vida mental sadia para a evolução do ser humano

A psicanalista Maria Bernadette Biaggi explica que as pessoas buscam uma ajuda profissional em momentos de sofrimento emocional e psíquico (Verônica Manevy/Divulgação)
A psicanalista Maria Bernadette Biaggi explica que as pessoas buscam uma ajuda profissional em momentos de sofrimento emocional e psíquico
Quando procurar um terapeuta? Será que falar, falar e falar sobre as questões tão íntimas com um estranho vai resolver? Como saber que preciso fazer análise? Maria Bernadette Biaggi, psicóloga, psicanalista e presidente do Istituto Biaggi – Psicoterapia Psicoanalisi Cultura e Arte Brasil-Italia, instituição especializada no desenvolvimento humano, esclarece que, em geral, as pessoas procuram a ajuda de um profissional em momentos de sofrimento emocional e psíquico devido às turbulências naturais do existir. Diferente dos amigos, que têm função terapêutica e não psicoterapêutica, ela lembra que o profissional mantém um “ouvido no funcionamento psíquico, onde a mente se expressa segundo sua constituição desde as memórias sensoriais da vida intrauterina e onde ocorrem as primeiras sinapses neurais. Todas as nossas vivências são registradas e, em especial as da primeira infância, que serão as matrizes do comportamento futuro”. Ela explica que a mente é um ecossistema equilibrado. Funciona como o oceano. Nele existem todos os tipos de peixe, os feios, coloridos, assassinos, pequenos, grandes. Mas todos circulam e equilibram o sistema natural. “Não existe emoção ruim ou boa, feia ou bela. Todas são necessárias ao equilíbrio psíquico.”

Bernadette, analista que segue a Escola Inglesa das Relações de Objeto de Origem Kleiniana (Melaine Klein), aponta que se alguma situação estressante ou traumática interrompe o fluxo natural da energia libidinal necessária ao crescimento mental, o psiquismo entra em funcionamento defensivo para suportar a dor. “Esses mecanismos psíquicos protegem e defendem o ego (eu) a ponto de causar prejuízos nas relações com o mundo, chegando ao empobrecimento da sua expressão como ser psicossomático (corpo e mente em uníssono). Ele passa a viver aquém do seu potencial e na busca desesperada do preenchimento das suas necessidades de amor e reconhecimento. São essas partes que choram por meio dos sintomas e que levam à busca da psicoterapia.”

A psicanalista diz que fazer análise é “sonhar, imaginar com o paciente o seu mundo interno, num processo fino de lapidar suas emoções, de trazer à consciência o material depositado na memória não declarativa, inconsciente. De posse de si mesmo, já com defesas mais realísticas e apropriadas, ele poderá construir um espaço mental para hospedar a sua mente, suas experiências de vida, sem ter que vomitá-las no mundo ou em si mesmo”. Para Bernadette, a psicanálise focaliza o crescimento mental, e não apenas a mudança de comportamento, e procura restabelecer a qualidade das emoções e da vida mental, “mas que a observação da pessoa se encontrava impedida pela percepção fragmentada do mundo interno e externo”. Para os céticos, desconfiados ou preconceituosos, Bernardette avisa que a terapia não se trata de uma busca inacabada nem conclusões definitivas, mas deve constituir em novas e progressivas aberturas, numa constante interrelação. “Segundo Bion, psicanalista inglês de origem indiana, é o universo em expansão. A análise nos conduz a uma renúncia das ilusões narcísicas, uma saída do autoengano.”

AVANÇO

Diante dos avanços, Bernadette explica que hoje chegou-se a um modelo de campo psicanalítico. “Autores do porte do italiano Antonino Ferro e do americano Thomas Ogden propõem que o analista entre com a sua mente no campo relacional. Assim, o modelo clássico de observação é rompido e o analista é colocado em cena, contribuindo com a própria vida mental às ocorrências dentro da sessão de análise. É nessa proposição que o modelo de campo analítico se constitui. Partimos do modelo arqueológico para um modelo do que surge do encontro entre as duas mentes, analista-analisando, criando um espaço gerador de uma experiência emocional da dupla. O encontro analítico toma a feição de um encontro entre subjetividades. Nesse encontro surge o terceiro, que é narrado pelas participantes. Não se trata de extrair um significado, mas de um interagir na construção de um sentido compartilhado.”



O olhar para os processos subjetivos e inconscientes da mulher
Trecho selecionado do livro O Mundo de Sofia, capítulo sobre Freud, para a aula de Psicoterapia Holística, da CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holistica.

O Mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.
Capítulo 31 (Excerto)
Freud
(Páginas 458-473.)

(…)

Alberto e Sofia ficaram parados à porta da cabana. Por fim, Alberto disse:
— É melhor entrarmos. Hoje vou contar a você sobre Freud e sua teoria do inconsciente.
Sentaram-se à janela. Sofia olhou para o relógio e disse:
— Já são duas e meia e eu ainda preciso providenciar algumas coisas para a festa.
— Eu também. Vamos falar rapidamente sobre Sigmund Freud.
— Ele foi um filósofo?
— Podemos chamá-lo de um filósofo da cultura. Freud nasceu em 1856 e estudou medicina na Universidade de Viena. Passou a maior parte de sua vida naquela cidade, justamente durante um período em que a vida cultural vienense experimentou uma fase de apogeu. Desde cedo, Freud se especializou num ramo da medicina que chamamos de neurologia. De fins do século XIX até quase meados do século XX, ele trabalhou na elaboração de sua psicologia profunda ou psicanálise.
— Explique melhor.
— Por psicanálise entende-se tanto a descrição da mente, da psique humana em geral, quanto um método de tratamento para distúrbios nervosos e psíquicos. Não pretendo fazer uma explanação detalhada sobre Freud e sua obra, mas é preciso conhecer um pouco de sua teoria do inconsciente, se quisermos entender o que é o ser humano.
— Você já conseguiu despertar meu interesse. Vamos lá!
— Freud achava que sempre havia uma tensão entre o homem e o seu meio. Para ser mais exato, uma tensão, ou um conflito, entre o próprio homem e aquilo que seu meio exigia dele. Não seria exagerado dizer que Freud descobriu o universo dos impulsos que regem a vida do homem. E isto faz dele um legítimo representante das correntes naturalistas, tão importantes em fins do século XIX.
— O que se entende por "impulso" do homem?
— Nem sempre é a razão que governa nossas ações. Conseqüentemente, o homem não é apenas o ser racional tão defendido pelos racionalistas do século XVIII. Com freqüência, impulsos irracionais determinam nossos pensamentos, nossos sonhos e nossas ações. Tais impulsos irracionais são capazes de trazer à luz instintos e necessidades que estão profundamente enraizados dentro de nós. Tão básico quanto a necessidade que um bebê tem de mamar seria, por exemplo, o impulso sexual do homem.
— Entendo.
— Talvez tudo isto não tivesse nada de novo em si. Mas Freud mostrou que essas necessidades básicas podiam vir à tona disfarçadas e tão modificadas que não seríamos capazes de reconhecer sua origem. Assim disfarçadas, elas governariam nossas ações, sem que tivéssemos consciência disso. Além disso, Freud mostrou que as crianças também têm uma espécie de sexualidade. A afirmação da existência de uma sexualidade infantil causou repulsa entre os refinados cidadãos de Viena e fez de Freud um homem extremamente impopular.
— Não me surpreende.
— Estamos falando de uma época na qual tudo o que tinha a ver com a sexualidade era tabu. Freud chegara à conclusão da existência de uma sexualidade infantil por meio de sua prática como psicoterapeuta. Ele tinha, portanto, uma sólida base empírica para fundamentar suas afirmações. Freud também constatou que muitas formas de distúrbios psíquicos eram devidas a conflitos ocorridos na infância. Aos poucos, então, Freud foi desenvolvendo um método de tratamento que podemos chamar de "arqueologia da alma".
— O que você quer dizer com isso?
— O psicanalista pode "cavoucar" a mente do Cliente, com a ajuda dele, é claro, a fim de trazer à luz as experiências e vivências que, em algum momento da vida passada, provocaram seu distúrbio psíquico. Para Freud, portanto, guardamos bem no fundo de nós todas as lembranças do passado.
— Agora estou entendendo.
— E pode ser que neste processo o terapeuta encontre uma experiência ruim que o Cliente sempre tentou esquecer, mas que está bem viva e presente dentro dele e lhe rouba as forças. No momento em que tal "experiência traumática" é trazida ao consciente e o Cliente tem a chance de encará-la de frente, por assim dizer, ele pode "se entender" com ela e se harmonizar.
— Isto parece lógico.
— Mas estou avançando rápido demais. Vamos ver primeiro como Freud descreve a psique humana. Você já viu um recém-nascido?
— Tenho um primo de quatro anos.
— Quando vêm ao mundo, os bebês satisfazem suas necessidades físicas e psíquicas de forma bastante direta e desinibida. Se estão com fome, choram. E também choram quando estão com a fralda molhada ou quando querem deixar bem claro que querem um pouco de calor humano e contato físico. Freud chama de id este "princípio do prazer" que existe em nós. Quando somos recém-nascidos, quase todo o nosso ser é apenas um id.
— Prossiga.
— O id continua conosco na idade adulta e nos acompanha a vida toda. Só que aos poucos vamos aprendendo a controlar nossos desejos a fim de nos adaptarmos ao nosso meio. Em outras palavras, aprendemos a afinar nosso princípio de prazer com o princípio da realidade. Freud diz que construímos um ego e que este ego assume esta função reguladora. A partir de certa idade, embora tenhamos prazer em alguma coisa, não podemos simplesmente sentar e abrir o berreiro até que nossos desejos ou necessidades sejam satisfeitos.
— É claro que não.
— Mas pode acontecer de nós desejarmos intensamente alguma coisa que nosso meio não aceita. O que acontece é que muitas vezes reprimimos nossos desejos. Quer dizer, tentamos colocá-los de lado e esquecê-los.
— Entendo.
— Mas Freud aponta também uma terceira instância na psique humana: ainda crianças, somos confrontados com os padrões morais de nossos pais e de nosso meio. Quando fazemos alguma coisa de errado, nossos pais dizem "Não faça isto!", ou então "Que vergonha!". E mesmo depois de adultos podemos ouvir o eco de tais repreensões e julgamentos morais. As expectativas de nosso meio no plano da moral parecem ter se alojado dentro de nós e passado a constituir uma parte de nós mesmos. É isto que Freud chama de superego.
— Superego seria para ele sinônimo de consciência?
— Numa passagem, Freud chega a dizer textualmente que o superego se opõe ao ego como uma espécie de consciência. Na verdade, porém, trata-se do seguinte: o superego nos informa, por assim dizer, quando nossos desejos são "sujos" ou "impróprios", e isto vale especialmente para os desejos eróticos ou sexuais. Como eu já disse, Freud constatou que tais desejos surgem bem cedo na infância.
— Me explique melhor, por favor.
— Hoje em dia sabemos e vemos que os bebês gostam de brincar com seus órgãos genitais. Podemos ver isto, por exemplo, quando vamos à praia ou à piscina. Na época de Freud, a criança de dois ou três anos que fizesse isto na frente dos outros ganhava um belo tapa na mão. Naquela época, era comum as crianças ouvirem frases tais como: "Que coisa mais feia!", ou, "Não faça isso!", ou ainda "Deixe as mãos para fora das cobertas!".
— Revoltante…
— Dessa forma, as pessoas desenvolvem um sentimento de culpa. E como este sentimento de culpa é armazenado no superego, para muitas pessoas, e Freud acreditava que para a maioria delas, ele fica indissociavelmente atrelado a tudo o que diz respeito ao sexo. Ao mesmo tempo, Freud chamava a atenção para o fato de os desejos e necessidades sexuais serem uma parte natural e importante da natureza humana. E assim, minha cara Sofia, temos aqui todos os elementos de que necessitamos para um conflito entre prazer e culpa que pode nos acompanhar por toda a vida.
— Você não acha que esse conflito diminuiu um pouco desde a época de Freud?
— Certamente. Mas muitos dos Clientes de Freud viviam este conflito de forma tão intensa que chegaram a desenvolver o que Freud chamou de neuroses. Uma de suas Clientes, por exemplo, apaixonou-se por seu cunhado. Quando sua irmã morreu ainda jovem, vítima de uma enfermidade, ela pensou junto ao leito de morte da irmã: "Agora ele está livre e pode se casar comigo!". Este pensamento naturalmente entrou em conflito direto com o seu superego. Era um pensamento tão hediondo que ela o reprimiu, como Freud diz. Quer dizer, ela o enterrou no inconsciente. Depois, aquela jovem senhora ficou doente e passou a apresentar sérios sintomas de histeria. E quando Freud assumiu o tratamento dela, ficou claro que ela tinha se esquecido completamente da cena junto ao leito de morte de sua irmã e do desejo terrível, egoísta, que sentira vir à tona dentro de si. Durante o tratamento, a Cliente voltou a se lembrar da cena, reviveu aquele momento que era a causa de sua enfermidade e ficou sadia.
— Agora eu estou começando a entender o que você queria dizer com "arqueologia da alma".
— Então vamos arriscar uma descrição bem genérica da psique humana. Após um longo período de experiência com Clientes, Freud chegou à conclusão de que a consciência humana era apenas uma pequena parte da psique. A consciência seria mais ou menos como a ponta de um icebergsubconsciente, ou o inconsciente. que se eleva para além da superfície da água. Sob a superfície, ou sob o limiar da consciência, está o
— Quer dizer que o inconsciente é tudo de que nós nos esquecemos, mas que continua dentro de nós?
— Não podemos ter presente em nossa consciência, o tempo todo, todas as experiências que vivemos. Mas tudo o que pensamos ou vivemos e tudo de que nos lembramos quando pomos a cabeça para funcionar Freud chama de "pré-consciente". A expressão "inconsciente" significa, para Freud, tudo o que reprimimos. Quer dizer, tudo de que nós queremos nos esquecer a qualquer preço porque consideramos desagradável, indecoroso ou repulsivo. Quando temos desejos e prazeres que para nossa consciência, ou para nosso superego, são insuportáveis, nós simplesmente os enfiamos no porão do inconsciente e assim nos livramos deles.
— Entendo.
— Este mecanismo funciona em todas as pessoas sadias. Para algumas pessoas, porém, o ato de banir tais pensamentos desagradáveis ou proibidos é algo tão estressante que elas ficam doentes. É que aquilo que foi reprimido desta forma continua tentando emergir para o nível da consciência, de sorte que cada vez mais energia é despendida para se manter tais impulsos longe da crítica do consciente. Em 1909, quando Freud proferiu algumas palestras nos Estados Unidos sobre a psicanálise, ele ilustrou com um exemplo muito simples o funcionamento desse mecanismo de repressão.
— Que exemplo foi este?
— Ele pediu aos ouvintes que imaginassem que no auditório havia um indivíduo que perturbava a ordem e desconcentrava o orador rindo às gargalhadas, conversando com seus vizinhos e arrastando e batendo os pés no chão. Chegaria, então, um momento em que o orador não poderia continuar a falar. Nesse momento, alguns homens fortes provavelmente se levantariam e, depois de uma breve discussão, colocariam o elemento perturbador porta afora, no corredor. O indivíduo seria "reprimido", portanto, e o orador poderia continuar com sua palestra. Mas para evitar que o elemento perturbador tentasse forçar sua entrada de novo no auditório, os mesmos homens que o tinham colocado para fora levariam suas cadeiras até a porta e funcionariam como uma espécie de resistência para garantir a repressão. Freud concluiu dizendo que se os ouvintes imaginassem o auditório como o "consciente" e o corredor como o "inconsciente", teriam uma boa imagem de como funciona o processo de repressão.
— Também acho que a imagem é boa.
— Uma coisa é certa: o elemento perturbador vai querer entrar novamente na sala de conferências, Sofia. Em todo caso, é isto o que querem nossos pensamentos e impulsos reprimidos. Vivemos sob a constante pressão de pensamentos reprimidos, que tentam se libertar do inconsciente. Por isso é que muitas vezes dizemos e fazemos coisas que na verdade "não tínhamos a intenção de fazer". Dessa forma, o inconsciente também pode guiar nossos sentimentos e ações.
— Você poderia me dar um exemplo?
— Freud descreve vários desses mecanismos. Um deles é o chamado ato falho, ou seja, algo que dizemos ou fazemos espontaneamente e que um dia tínhamos reprimido. Ele fala, por exemplo, de um empregado que foi escolhido para fazer um brinde ao seu chefe, de quem ninguém gostava.
— Sim?
— O empregado se levantou, ergueu o copo e disse: "Convido todos a arrotarem em homenagem a nosso chefe!".
— Legal!
— Não foi o que o chefe achou. Ao dizer isto, o empregado simplesmente tinha expressado o que realmente achava de seu chefe. Talvez nunca tivesse ousado dizê-lo abertamente a ele. Você quer mais um exemplo?
— Sim.
— Certo dia, o bispo foi visitar a família de um pastor, que era pai de umas meninas adoráveis e muito comportadas. Este bispo tinha um nariz enorme, fora do comum. O pastor teve o cuidado, então, de pedir às suas filhas que não mencionassem nada a respeito do nariz do bispo. É que as crianças geralmente começam a rir quando percebem essas coisas, pois ainda não têm o mecanismo de repressão muito bem desenvolvido.
— E o que aconteceu?
— O bispo veio até a paróquia e as meninas, absolutamente deliciadas com a situação, faziam todo o esforço possível para não dizer nada a respeito do nariz. E mais: elas não podiam sequer ficar olhando para o nariz. Tinham de esquecê-lo completamente. Só que elas ficavam pensando no nariz do bispo o tempo todo. E quando chegou a hora de a menorzinha oferecer ao honorável bispo açúcar para o café, ela disse: "O senhor aceita um pouco de açúcar no nariz?".
— Putz!
— Às vezes nós também racionalizamos, quer dizer, tentamos mostrar a nós mesmos, e aos outros, que temos outros motivos para fazer o que fazemos em certas situações, e não revelamos os reais motivos que nos levaram a agir de certa maneira, simplesmente porque eles são constrangedores demais.
— Um exemplo, por favor.
— Posso hipnotizar você e induzi-la a abrir a janela. Para tanto, ordeno a você que se levante e abra a janela quando eu tamborilar com os dedos sobre a mesa, por exemplo. Quando eu faço isto, você se levanta e abre a janela. Depois pergunto a você por que você abriu a janela. Talvez você me responda que o fez porque estava muito quente aqui dentro. Mas este não é o verdadeiro motivo. Você não quer admitir para si mesma que obedeceu à minha ordem enquanto estava hipnotizada. E o que você faz? Você "racionaliza", Sofia.
— Entendo.
— Coisas como esta acontecem quase todos os dias quando nos relacionamos com os outros.
— Eu já disse a você que tenho um priminho de quatro anos. Acho que ele não tem muitos amigos para brincar, pois ele sempre fica muito contente quando eu vou visitá-lo. Certa vez eu disse que precisava voltar logo para casa, pois minha mãe estava me esperando. E sabe o que ele me disse?
— Não.
— "Sua mãe é uma chata", foi isto o que disse.
— Sim, este é um bom exemplo para o que entendemos por racionalizar. O menino realmente não quis dizer que sua mãe é uma chata. Ele quis dizer que achava chato que você tivesse de ir embora. Só que para ele não era muito fácil verbalizar isto. Outra coisa que pode acontecer é que nós projetamos.
— Traduza, por favor.
— Quando projetamos alguma coisa estamos transferindo a outros as características que tentamos reprimir em nós mesmos. Uma pessoa avarenta, por exemplo, gosta de ficar dizendo que os outros são avarentos. Alguém que não quer admitir que pensa muito em sexo geralmente é o primeiro a se irritar quando encontra outras pessoas fissuradas por sexo.
— Entendo.
— Freud dizia que nossa vida cotidiana está repleta de tais ações inconscientes. Muitas vezes nos esquecemos do nome de certa pessoa, ficamos mexendo numa pontinha de nossa roupa enquanto estamos falando ou então ficamos mudando de posição objetos aparentemente sem importância. Ou podemos tropeçar em nossas próprias palavras e acabar trocando letras e nomes, que à primeira vista podem parecer totalmente inocentes, mas que na verdade não são. Freud pelo menos não considera essas coisas tão inocentes e casuais como podemos achar. Ele acha que elas deveriam ser encaradas como sintomas. Para ele, esses atos falhos podem nos revelar segredos os mais íntimos.
— Daqui para frente, vou prestar bastante atenção em cada palavra que disser.
— Mesmo assim, você não poderá escapar de seus impulsos inconscientes. O segredo está em não se desgastar demais ao se empurrar as coisas desagradáveis para o subconsciente. É como querer tapar o buraco de uma toupeira. Você pode até conseguir, mas com certeza ela virá à superfície em algum outro ponto. O mais sadio é deixar só encostada a porta entre o consciente e o subconsciente.
— Se trancarmos a porta à chave podemos provocar distúrbios psíquicos em nós mesmos?
— Sim. Um neurótico é justamente alguém que despende energia demais na tentativa de banir de seu consciente tudo aquilo que o incomoda. Com freqüência trata-se de reprimir experiências bem específicas. São as chamadas "experiências traumáticas", que eu já mencionei no início de nossa conversa, talvez um pouco cedo demais. Freud as chama de traumas. A palavra "trauma" é grega e significa "ferida".
— Entendo.
— Em seus tratamentos, às vezes Freud tentava abrir cuidadosamente estas portas trancadas; outras vezes, procurava abrir outra porta. Com a colaboração do Cliente, ele tentava trazer à tona novamente as experiências reprimidas. Isto porque o Cliente não tem consciência de que as reprimiu. Não obstante, ele deseja que o médico, ou o analista, como se diz em psicanálise, o ajude a encontrar um caminho que o leve a seus traumas escondidos.
— E como o médico procede neste caso?
— Freud chamava este procedimento de técnica da livre associação. Isto significa que ele deixava o Cliente deitado, bem relaxado, falando apenas sobre coisas que lhe viessem à cabeça, por mais irrelevantes, casuais, desagradáveis ou penosas que elas lhe fossem. Para o analista, as associações do Cliente no divã trazem indícios de seus traumas e das resistências que impedem a conscientização. Pois são exatamente os traumas que ocupam os Clientes o tempo todo, só que não de forma consciente.
— Quer dizer que quanto mais a gente se esforça para esquecer uma coisa, mais a gente pensa inconscientemente nela?
— Exatamente. Por isso é importante prestar atenção aos sinais do inconsciente. Para Freud, o "caminho real" que leva para o inconsciente passa pelos sonhos. Por esta razão, uma de suas mais importantes obras é o livro A interpretação dos sonhos, publicado em 1900. Nele, Freud mostra que nossos sonhos não são meros acasos. Por meio dos sonhos, nossos pensamentos inconscientes tentam se comunicar com nosso consciente.
— Continue.
— Após longos anos de experiências acumuladas no trabalho com seus Clientes, e também depois de ter analisado os seus próprios sonhos, Freud afirmou que todos os sonhos são a realização de desejos. Ele dizia que podemos observar isto claramente nas crianças: elas sonham com sorvetes e cerejas, por exemplo. Em adultos, porém, acontece com freqüência de os desejos a serem satisfeitos no sonho aparecerem disfarçados. Isto acontece porque mesmo quando estamos dormindo uma censura severa continua a determinar o que podemos nos permitir ou não. Quando estamos dormindo, esta censura, ou mecanismo de repressão, é mais fraca do que quando acordados, mas ainda é forte o bastante para desfigurar no sonho os desejos que não queremos confessar nem a nós mesmos.
— E é por isso que os sonhos têm de ser interpretados?
— Freud mostra que precisamos distinguir entre o sonho, tal como ele nos vem à lembrança na manhã seguinte, e o seu verdadeiro significado. As próprias imagens oníricas, quer dizer, o filme ou o vídeo a que assistimos quando sonhamos, ele as chamou de conteúdo manifesto do sonho. Mas o sonho também tem um significado mais profundo, que permanece inacessível ao consciente. E este significado, Freud o chamou de pensamentos latentes do sonho. As imagens oníricas e seus requisitos são geralmente tiradas do passado mais próximo, com freqüência dos acontecimentos que vivemos no dia anterior. Os pensamentos ocultos, porém, vêm de um passado mais remoto; por exemplo, das primeiras fases de nossa infância.
— Quer dizer que precisamos analisar o sonho para entender do que ele trata realmente.
— Sim. E os enfermos precisam fazer isto junto com um terapeuta. Mas não é o médico que interpreta os sonhos. Ele só pode fazer isto com a ajuda do Cliente. O médico entra nessa situação apenas como uma parteira socrática que ajuda na interpretação.
— Entendo.
— O ato de reformular, de converter os "pensamentos latentes do sonho" em "conteúdo manifesto do sonho" é chamado por Freud de trabalhar o sonho. Podemos falar de um "mascaramento" ou de uma "codificação" da verdadeira ação que se desenrola no sonho. Na interpretação do sonho, temos de passar por um processo inverso. Temos de desmascarar ou decodificar o verdadeiro "motivo" do sonho, a fim de podermos descobrir o verdadeiro "tema" do sonho.
— Você poderia me dar um exemplo?
— Os livros de Freud estão cheios desses exemplos. Mas nós mesmos podemos inventar um exemplo bem simples e bem freudiano. Quando um rapaz sonha que sua prima lhe deu dois balões de ar…
— Sim?
— Não espere que eu continue. Você mesma deve tentar interpretar esse sonho agora.
— Hum… Neste caso, o "conteúdo manifesto do sonho" é exatamente isto que você disse: a prima dele lhe dá dois balões de ar.
— Continue.
— E você também disse que os requisitos de nossos sonhos geralmente são tirados das experiências vividas no dia anterior. Portanto, ele deve ter ido a um parque de diversões no dia anterior, ou então viu no jornal a foto de dois balões de ar.
— Sim, pode ser. Mas também pode ser que ele tenha apenas ouvido a palavra "balão" ou visto alguma coisa que o tenha feito lembrar de um balão.
— Mas o que são os "pensamentos latentes do sonho"? Eles não são aquilo de que o sonho realmente trata?
— Quem está interpretando sonhos aqui é você.
— Será que ele simplesmente não estaria querendo dois balões?
— Não, isto é pouco provável. Num ponto, porém, você tem razão: ele quer satisfazer um desejo no sonho. Só que dificilmente um rapaz adulto desejaria assim tão ardentemente dois balões de ar. E, se quisesse, não seria necessário sonhar com isso.
— Então… acho que na verdade ele deseja a sua prima. E os dois balões são os seios dela.
— Sim, esta é uma explicação provável, sobretudo porque este desejo lhe causa certo embaraço, de modo que ele não gosta de admiti-lo quando está acordado.
— Quer dizer que nossos sonhos dão umas voltas e passam por coisas como balões etc.?
— Sim. Freud considerava o sonho a realização disfarçada de desejos disfarçados. Pode ser que o que disfarçamos tenha se modificado consideravelmente desde que Freud conversava com seus Clientes em seu consultório em Viena. Apesar disso, é possível que o mecanismo de disfarce continue intacto.
— Entendo.
— Nos anos 20, a psicanálise de Freud se tornou muito importante, sobretudo no tratamento das neuroses. Além disso, sua teoria do inconsciente foi muito importante para a arte e a literatura.
— Você está querendo dizer que os artistas passaram a se ocupar mais da vida mental inconsciente do homem?
— Exatamente, embora isto já estivesse presente na literatura da última década do século XIX, quando a psicanálise de Freud ainda não era conhecida. Só estou querendo dizer que não é por acaso que a psicanálise de Freud surgiu exatamente nesta época.
— Você quer dizer que ela já estava embutida no espírito da época?
— Freud não acreditava ter descoberto, por assim dizer, fenômenos como a repressão, os atos falhos ou a racionalização. Mas ele foi o primeiro a trazer para dentro da psiquiatria tais experiências humanas. Ele também soube ilustrar muito bem sua teoria com exemplos extraídos da literatura. Mas, como eu disse, a psicanálise de Freud passou a influenciar diretamente a arte e a literatura a partir dos anos 20.
— De que forma?
— Escritores e pintores passaram a tentar aplicar as forças inconscientes em seus trabalhos de criação. E isto vale sobretudo para os chamados surrealistas.
— O que significa isto?
— A expressão "surrealismo" é francesa e significa algo como "aquilo que está além do realismo". Em 1924, André Breton publicou seu Manifesto surrealista. Nele, Breton declara que a arte deveria ser criada a partir do inconsciente, pois só assim a inspiração do artista estaria livre para produzir suas imagens oníricas e o artista poderia buscar um "super-realismo", no qual as barreiras entre sonho e realidade fossem abolidas. De fato, pode ser muito importante para um artista eliminar a censura do consciente, a fim de que palavras e imagens possam fluir livremente.
— Entendo.
— De certa forma, Freud tinha dado a prova de que todas as pessoas são artistas. Afinal, um sonho é uma pequena obra de arte e a cada noite criamos novos sonhos. Para interpretar os sonhos de seus Clientes, Freud freqüentemente tinha de abrir caminho através de um denso emaranhado de símbolos, mais ou menos como fazemos quando interpretamos um quadro ou um texto literário.
— E nós sonhamos todas as noites?
— Pesquisas recentes demonstraram que vinte por cento do tempo que passamos dormindo é preenchido por sonhos. Isto significa que sonhamos de duas a três horas por noite. Quando somos perturbados durante essas fases, reagimos com nervosismo e irritação. Isto significa nada mais e nada menos que todas as pessoas têm uma necessidade inata de dar à sua situação existencial uma expressão artística. O sonho trata de nós mesmos. Somos nós quem dirigimos este "filme", juntamos tudo o que compõe os seus cenários e requisitos e desempenhamos todos os papéis. As pessoas que dizem que não entendem nada de arte são pessoas que se conhecem mal.
— Entendo.
— Além disso, Freud deu uma prova impressionante de como é fantástica a mente humana. Seu trabalho com Clientes convenceu-o de que guardamos no fundo de nossa mente tudo o que vimos e vivemos. E todas essas impressões podem ser trazidas à tona novamente. Todas as vezes que nos dá "um branco" e, pouco depois, ficamos com o que queremos lembrar "na ponta da língua", e quando, um pouco mais tarde ainda, a coisa "subitamente nos ocorre", estamos falando de algo que estava no inconsciente e, de repente, encontrou uma porta entreaberta e conseguiu escapar para o consciente.
— Mas às vezes isto demora muito.
— Sim, todos os artistas sabem disso. Só que de repente todas as portas e gavetas do arquivo parecem se abrir. Tudo flui espontaneamente e então podemos escolher exatamente as palavras e as imagens de que precisamos. Isto acontece quando deixamos a porta do inconsciente entreaberta. Podemos chamar isto de inspiração, Sofia. E então temos a sensação de que aquilo que desenhamos ou escrevemos não veio de nós.
— Deve ser um sentimento maravilhoso.
— Mas com certeza você mesma já o experimentou. Podemos observar facilmente este estado inspirado em crianças que estão supercansadas. Neste estado, as crianças parecem mais acordadas do que nunca e começam a falar sem parar, tirando da memória palavras que elas ainda nem aprenderam. Só que é claro que elas já aprenderam. Acontece que essas palavras estavam "latentes" no seu consciente e só agora, quando o cansaço relaxa o policiamento e abole a censura, elas podem vir à tona. Para o artista, a situação é diferente. Mas também para ele pode ser importante que a razão e a reflexão não exerçam um controle tão rigoroso sobre aquilo que melhor pode se desenvolver espontânea, livre e inconscientemente. Posso contar uma fábula que ilustra muito bem o que estou dizendo?
— Claro!
— É uma fábula muito séria e muito triste.
— Pode começar.
— Era uma vez uma centopéia que sabia dançar excepcionalmente bem com suas cem perninhas. Quando ela dançava, os outros animais da floresta reuniam-se para vê-la e ficavam muito impressionados com sua arte. Só um bicho não gostava de assistir à dança da centopéia: uma tartaruga.
— Na certa porque tinha inveja.
— "Como será que eu posso conseguir fazer a centopéia parar de dançar?", pensava ela. Ela não podia simplesmente dizer que a dança da centopéia não lhe agradava. E também não podia dizer que sabia dançar melhor que a centopéia, pois ninguém iria acreditar. Então ela começou a bolar um plano diabólico.
— Que plano era esse?
— A tartaruga pôs-se, então, a escrever uma carta endereçada à centopéia: "Oh, incomparável centopéia! Sou uma devota admiradora de sua dança singular e gostaria muito de saber como você faz para dançar. Você levanta primeiro a perna esquerda número 28 e depois a perna direita número 59, ou começa a dançar erguendo a perna direita número 26 e depois a perna esquerda número 49? Espero ansiosa por sua resposta. Cordiais saudações, a tartaruga".

— Que coisa de doido!

— Quando a centopéia recebeu esta carta, refletiu pela primeira vez na sua vida sobre o que fazia de fato quando dançava. Que perna ela movia primeiro? E qual perna vinha depois? E você sabe, Sofia, o que aconteceu?
— Acho que a centopéia nunca mais dançou.
— Foi isso mesmo. E é exatamente isto que pode acontecer quando o pensamento sufoca a imaginação.
— É triste mesmo esta história.
— Para um artista, portanto, pode ser muito importante "se deixar levar". Os surrealistas tentavam se aproveitar disso e buscavam um estado em que tudo parecia brotar espontaneamente. Eles sentavam-se à frente de uma folha de papel em branco e começavam a escrever, sem pensar no que estavam escrevendo. Era isto o que chamavam de escrita automática. Na verdade, a expressão vem do espiritismo, em que um "médium" acredita que o espírito de alguém que já morreu está dirigindo sua mão ao escrever… Mas acho melhor continuarmos falando amanhã sobre essas coisas.
— Tudo bem.
— O artista surrealista também é, de certa maneira, um médium. Ele é um médium de seu próprio subconsciente. Contudo, é possível que haja uma pontinha de inconsciente em todo processo criativo. Pois o que seria isto que chamamos de "criatividade"?
— Ser criativo não significa criar algo de novo e de único?
— Mais ou menos. E isto ocorre por meio de uma delicada interação entre imaginação e razão. Na maioria das vezes, a razão sufoca a imaginação; e isto é ruim, pois sem imaginação não é possível produzir nada de novo. Eu vejo a imaginação como um sistema darwinista.
— Desculpe, mas esta eu não entendi.
— O darwinismo explica que a natureza produz um mutante atrás do outro. Mas a natureza só precisa de alguns poucos desses mutantes. Só alguns poucos têm a chance de viver.
— E então?
— O mesmo acontece quando pensamos, quando estamos inspirados e temos muitas e novas idéias. Nesse caso, nossa cabeça produz um "pensamento mutante" atrás do outro. Quer dizer, isto se nós não nos impusermos uma censura muito severa. Acontece que só vamos usar realmente alguns desses pensamentos. E é aqui que entra a razão, pois ela também tem uma função importante. Quando temos sobre a mesa o resultado da pesca, não podemos esquecer de escolher os peixes.
— Esta é uma ótima comparação.
— Imagine se tudo o que nos "ocorre", se cada lampejo de pensamento tivesse autorização para sair da nossa boca! Ou então para saltar do bloco de apontamentos ou sair das gavetas da escrivaninha! O mundo se afogaria bem depressa num mar de idéias e lembranças casuais. E não haveria uma "seleção", Sofia.
— E a razão escolhe as melhores entre todas as idéias e lembranças?
— Sim, ou você não acha? A imaginação pode criar coisas novas, mas não é ela que realmente escolhe. Não é a imaginação que "compõe". Uma composição, e toda obra de arte é uma composição, surge de uma admirável interação entre imaginação e razão, ou entre sentimentos e pensamentos. O processo artístico tem sempre um elemento de casualidade. Em certa fase pode ser importante não represar essas idéias e lembranças casuais. As ovelhas precisam ser soltas primeiro para só depois o pastor poder vigiá-las.
(…)

Fonte: Projeto Cultural do SINTE - Sindicato dos Terapeutas.



PSICANÁLISE ESTUDO SOBRE INVEJA

PSICANÁLISE ESTUDO SOBRE INVEJA




INTRODUÇÃO

Muito antes do surgimento da psicanálise, a inveja era tida como um dos maiores problemas da humanidade. É, afinal, um dos sete pecados capitais e, segundo Geoffrey Chaucer – escritor inglês do século XIV-, “o pior pecado que existe. Isso porque, na verdade, todos os outros pecados são cometidos contra uma virtude específica, mas a inveja se volta contra todas as virtudes e toda bondade [...] e é como o demônio, que sempre se regozijou com o mal do homem”.

Chaucer dizia que a inveja se entristece com a bondade e a prosperidade dos outros, mas se deleita com a desgraça alheia. A característica singular da inveja é esta: não ter nenhum fim positivo. Os outros pecados têm o objetivo, embora equivocado ou interesseiro, de conquistar um objeto de desejo. Gula, avareza, luxúria, orgulho, todos são motivados a seu modo por algo desejável, ainda que em detrimento de outra pessoa. Só a inveja não traz vantagem alguma, pois ela destrói o objeto de admiração e, assim, o torna indesejável. A única vantagem óbvia seria o prazer sádico – “a alegria com o mal de outro homem”.

Chaucer citou algumas das maneiras como a inveja se apresenta que são conhecidas de muita gente. Falou de “calúnia ou detração” e de alguém que elogia o vizinho com “má-intenção, pois ele sempre coloca um ‘mas’, que é uma censura muito maior do que todo o elogio”. Certo sujeito trabalha duro e com abnegação para uma entidade beneficente, mas não passa de um benfeitor. Outro é um excelente pianista, mas toca um pouco rápido demais. Alguns amigos foram muito solícitos, mas são presunçosos demais.



1-DEFINIÇÕES DE INVEJA


Antes de avançar mais, eu gostaria de deixar claro que existem dois usos bem diferentes da palavra “inveja”. Chaucer a empregava em referência à carga destrutiva, arrasadora, que se volta contra a própria pessoa ou as qualidades admiradas nela. Esse é o tipo de inveja que a psicanálise também descreve.

No entanto, o termo é usado frequentemente na linguagem popular para indicar uma espécie de inveja que não tem um caráter pernicioso; ao contrário, consiste na aflição dolorosa decorrente de uma admiração que faz o indivíduo se conscientizar das suas deficiências.

Esse segundo tipo de inveja pode motivar a imitação ou levar à aceitação das próprias limitações, e não a uma tendência destrutiva.

Invejo em você as virtudes, as habilidades e a beleza, o que não significa necessariamente que eu queira destruí-las. Na verdade, a minha admiração por esses atributos pode me inspirar a usar melhor os meus.

Mesmo que o indivíduo não tenha como conseguir aquilo que inveja, ele pode se enriquecer com isso e obter algo de bom. Uma pessoa idosa que inveje os jovens talvez se sinta estimulada com a vivacidade e o otimismo deles, ainda que exista aí a dor de reconhecer o fato de que ela nunca mais será jovem. Alguém que inveje um artista ou um escritor não pode esperar conquistar o talento e a aptidão deles, mas pode se inspirar na criatividade deles e na sua concepção do mundo.

Essa inveja é intrínseca à avaliação dos outros e daquilo que eles têm para oferecer. É às vezes chamada de “inveja de imitação”. Eu nunca serei uma instrumentista brilhante, mas ainda assim posso me inspirar nas qualidades da música e da emoção que ela transmite.

É muito mais difícil conviver com a inveja destrutiva, mas ela também constitui a natureza humana. Talvez seja por essa razão que compreendemos algumas das personagens literárias invejosas, embora as deploremos, embora, de certa forma, elas nos instiguem. Além de provocarem um sentimento de indignação justa, como o Iago de Shakespeare e o Satanás de Paraíso perdido, de John Milton, essas personagens também induzem solidariedade: sabemos o que significa ser elas. É muito comum os vilões da literatura motivarem um interesse e uma compreensão maior do que os alvos admiráveis da inveja e da destrutividade deles, pois em cada um de nós há um vilão.

Podemos ter conhecimento das nossas qualidades aceitáveis, mas a literatura nos ajuda a aceitar traços da nossa personalidade que não aturaríamos tão bem não fosse ela.

A inveja destrutiva talvez seja o sentimento mais difícil de identificar em nós mesmos, já que aparentemente é a única emoção que ataca a bondade só porque é boa. Além disso, o efeito da inveja é solapar a bondade e as capacidade do indivíduo assim como as da pessoa invejada.


II- EFEITOS DA INVEJA NO EU

Milton e também Chaucer atribuíram a inveja ao demônio, uma vez que Satanás a personifica pelo seu ódio tanto à criatividade e ao poder de Deus Omo à sexualidade e ao amor imaculado de Adão e Eva. Expulso do Paraíso por ter tentado destronar Deus, Satanás vem a terra e espiona Adão e Eva. A inveja o domina:

Que espetáculo mais odioso, mais atormentador !

Então esses dois emparaisados, um nos braços do outro, o Éden mais feliz, vão desfrutar o seu quinhão de mais e mais felicidade, enquanto eu ao Inferno sou lançado.

Como se sabe, Satanás se põe invejosamente a arquitetar ao fim da felicidade e a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. O diabo pune a eles e a Deus por sua desgraça. E Milton descreve a angústia intolerável que se seguiu ao ataque de inveja de Satanás contra Deus e ao seu exílio do paraíso:

Eu, um desgraçado! Para onde fugirei da infinita cólera e do infinito desespero? Todos os caminhos me levam ao Inferno; o Inferno sou eu. E no mais profundo dos abismos um chão ainda mais fundo que ameaça devorar-me escancara-se, comparado com o qual o Inferno que padeço parece o Céu.

Uma menina de seis anos que queria desenhar muito bem não suportava que uma colega de classe fosse obviamente muito mais talentosa e fizesse desenhos muitos melhores que os dela. Certo dia, quando se viu sozinha na sala de aula, ela rasgou o desenho que a mais bem dotada deixara secando. Pouco depois, ficou extremamente apavorada com o que tinha feito, com uma vergonha imensa e se sentindo ainda mais imprestável do que antes. Sua relativa falta de talento aumentou bastante com o sentimento de culpa e a falta de esperança de consertar a situação.

Quando atacamos um objeto externo admirado, atacamos também a representação dele em nossa mente. Isso nos deixa sem um apoio interno, e a culpa do ataque afeta o nosso senso de valor pessoal. O ataque interno às pessoas e às qualidades que prezamos – os nossos “objetos bons”, como dizem os psicanalistas – pode provocar um sentimento de destruição e desolação interna.

O que, então, teria levado a menina de seis anos a rasgar a pintura ou Satanás a declarar guerra a Deus ? Talvez não só porque os objetos de inveja sejam considerados bons ou melhores, mas porque a qualidade deles faz a garota, Satanás ou qualquer um se sentir incapaz. Às vezes o indivíduo não suporta não ser o melhor. Então, o ataque ao que é bom talvez não se deva apenas ao desejo gratuito de prejudicar e tenha outra motivação: destruir algo ou alguém cuja qualidade o indivíduo entende de um modo que o faz se sentir mal. Na inveja sempre existe uma comparação – inveja-se aquilo que não se tem.


III- INVEJA E CIÚME

É importante diferenciar a inveja do seu par, o ciúme, embora os dois estejam quase sempre intimamente ligados e se confundam. Existe ciúme quando queremos ter alguém ou uma coisa. O motivo é a posse, e a destrutividade é um meio para esse fim. A forma destrutiva da inveja não poupa nada: o objeto admirado deve ser eliminado para que ninguém possa usufruí-lo.

A dificuldade de distinguir o ciúme da inveja fica clara nesta história comovente. Um menino de dois anos ficou empolgado com o nascimento do irmão. Enquanto o recém-nascido e a mãe continuavam na maternidade, ele fez muitas perguntas ao pai sobre os fatos da vida: como o bebê apareceu, como foi feito e como saiu da barriga da mãe. O pai se esforçou ao máximo para explicar delicadamente essas coisas ao filho, que pareceu satisfeito. Um pouco mais tarde, porém, o menino teve um chilique porque queria ir à maternidade. O pai, achando que o filho estivesse com ciúme do recém-nascido, perguntou-lhe se queria ficar com a mãe. O garoto exclamou veemente: “Não ! Eu quero ser a mamãe!” O fato de ele ter visto a mãe grávida e ter ouvido falar do nascimento provocou a inveja, Que se manifestou no faniquito, mas foi controlada de certa maneira na conversa cm o pai. A inveja desse menino, todavia, era controlável e suportável e, portanto, diferente da inveja mais perniciosa, muito mais difícil de mudar.

Exemplos como o da menina que rasgou a pintura e do menino à espera do nascimento do irmão acontecem todo dia. O menino conseguiu revelar o que sentia ao pai, que reconheceu a inveja e a frustração do filho de não ser a mãe, o que o ajudou a suportar esses sentimentos. Com o apoio do pai, o menino começou a criar uma figura interna que lhe permitiu compreender e tolerar a inveja. Por outro lado, só muitos anos depois a menina conseguiu contar o que fizera e continuava a se sentir mal com o acontecimento e incompreendida.

O mundo interior das pessoas é criado em parte pelos sentimentos e em parte pela convivência com os outros. O ataque de inveja pode nos deixar sem apoio interno porque achamos que as outras pessoas estão impregnadas dos nossos sentimentos negativos. A menina concluiu que não podia recorrer a ninguém porque na mente dela as figuras que a ajudariam tinham se tornado hostis e agressivos como ela. A garota tinha medo de que essas pessoas “arrancassem um pedaço dela”, do mesmo modo que ela havia rasgado a pintura. Em certos casos, os pais podem ser realmente severos e aplicar castigos, dando à criança bons motivos para contar o que fez. A dificuldade também pode estar na criança. Todavia, quase sempre essas situações se misturam.

As duas crianças mencionadas nos exemplos demonstram dois tipos de consciência. O menino conseguiu fazer o pai ajudá-lo a adquirir uma consciência benevolente ou compreensiva, que reconhece os sentimentos, mas não se vinga e, assim, contribui para conter a agressividade ou a dor. Fosse por que fosse, a menina, com uma culpa solitária, estava à mercê de uma consciência punitiva e impiedosa, a qual, ainda que a ajudasse a se comedir no futuro, não permitiu que ela se perdoasse por ter sentido inveja. Todos temos esses dois tipos de consciência – a compreensiva e a impiedosa – e os usamos em momentos diferentes. Eles são constituídos por uma mistura dos nossos sentimentos e da bondade ou da severidade real das pessoas ao redor. A inveja destrutiva é frequentemente acompanhada de uma consciência persecutória, que por sua vez implica solidão e sensação de abandono.

A terapia psicanalítica é uma maneira de as pessoas descobrirem a própria inveja e aprenderem a lidar com ela, em vez de deixá-la estragar tudo. O que dizem os psicanalistas a respeito da inveja? A partir de Sigmund Freud, muitas figuras importantes do mundo da psicanálise descobriram que a inveja pode ser o maior empecilho para o sucesso da análise e a aceitação da inveja pode ter importância fundamental para o bem-estar e a saúde mental do paciente.


IV- FREUD

Em “Análise Terminável e Interminável”, ensaio que escreveu dois anos antes de morrer, Freud mostra que o paciente pode se recusar a aceitar a ajuda do analista. Ele supôs que a recusa resultasse do medo da passividade, no homem, e da inveja do pênis, na mulher.

A supercompensação rebelde do homem produz uma das mais fortes resistências de transferência. Ele se recusa a se submeter a um pai substituto ou a se sentir em dívida com ele por qualquer coisa, e, consequentemente, recusa-se a aceitar que o seu restabelecimento parta do médico. Nenhuma transferência análoga Pode surgir do desejo da mulher por um pênis, mas esse desejo é fonte de crises de depressão grave nela, devido à convicção de que a análise não será proveitosa e de que nada pode ser feito para ajudá-la. (grifos meus)

Ainda que o ponto de vista de Freud se centrasse no pênis como símbolo de enorme potência e mérito físico, ele apontou um problema clínico significativo associado à inveja: por definição, o invejoso não pode aceitar ajuda por não suportar que lhe dêem nada. A dificuldade em ambos os sexos é aceitar algo que venha de outras pessoas.

Seria impossível falar do desenvolvimento das ideias da psicanálise sobre a inveja sem mencionar de passagem uma das mais polêmicas e contestadas contribuições de Freud para a teoria psicanalítica, a “inveja do pênis”. Ele afirmou que as crianças sabem de apenas um órgão genital, o pênis. No seu entender, a menina pequena percebe que não tem pênis ou até se acha um menino castrado, em vez de possuir algo que é só dela.

Freud supôs que a inveja do pênis pudesse provocar dificuldades futuras para aceitá-lo nas relações sexuais.

Embora muitos analistas concordem que existe inveja do pênis em ambos os sexos – afinal, o garotinho pode invejar o pênis desenvolvido do pai -, a ideia de primazia do pênis foi contestada ferrenhamente. Como explicarei, a ideia da inveja na infância passou a abranger a inveja da mãe já na primeira mamada. O conceito também foi ampliado para dar conta da ênfase nas funções únicas do órgão invejado ou da mãe ou do pai invejado. Então, o pênis é invejado pela potência; o seio, pela capacidade de alimentar; o corpo da mãe, por ser capaz de gerar bebês; e ambos os pais por serem, cada qual a seu modo, fontes da vida.

As feministas declaram que a inveja recai sobre as prerrogativas dos homens na sociedade e não no pênis em si. Do mesmo modo, as prerrogativas biológicas e sociais das mulheres, que geram filhos, lhes dão de comer e cuidam deles, aumenta a inveja que os homens têm delas. Isso porque é a diferença que motiva a inveja, sobretudo se essa diferença for fundamental.

V –ABRAHAM

O psicanalista Karl Abraham (1877-1925) propôs a tese de que a inveja causava dificuldades numa fase inicial da vida e destacou a possibilidade de o bebê ter inveja do seio.

Assim como Freud, Abraham deu grande ênfase à relação com o pai. Mas também apresentou ideias que mudariam a feição da psicanálise e seriam aprimoradas por outros analistas, especialmente por sua paciente Melanie Klein (1822-1960), pioneira da psicanálise de crianças e adultos.

Abraham afirmou que o bebê talvez achasse difícil aceitar a produtividade do seio e também a potência do pai. Ele ressaltou que “devemos ter claro que o prazer do período de amamentação é em grande medida um prazer de pegar, de receber algo” (grifo meu). Ele descreveu como na relação alimentar a inveja pode interferir no prazer do bebê de ser alimentado e levar a um padrão de relacionamentos insatisfatórios em que o indivíduo não consiga aceitar o que venha dos outros.

A proposição de que a inveja já existe nessa fase inicial foi um dado novo na psicanálise.

Abraham achava que o otimismo e a capacidade de desfrutar a vida derivassem de uma relação alimentar satisfatória. No entanto, quando essa relação dá errado e o indivíduo não consegue estimar o que lhe é dado, a situação pode se complicar bastante. Abraham descreveu um tipo de paciente que não tolerava aceitar o que o analista lhe propunha.

Em vez de estabelecer uma transferência, esses pacientes tendem a se identificar com o médico. Em lugar de terem uma relação mais próxima com o médico, eles se colocam na posição deste. Adotam os interesses do médico e gostam de se ocupar da psicanálise como ciência, em vez de deixá-la agir neles como método de tratamento. Eles tendem a trocar de papel, como faz a criança ao brincar de ser o pai. Eles ensinam o médico ao lhe oferecer a sua opinião sobre a própria neurose, que eles consideram especialmente interessante, e imaginam que a ciência se enriquecerá com a análise deles [...]. Acima de tudo, eles desejam superar o médico e depreciar a aptidão e as conquistas psicanalíticas dele. Eles afirmam ser capazes de “fazê-lo melhor” [...]. Indubitavelmente, existe nisso tudo um quê de inveja.

A observação de que o paciente “troca de papel” com o analista é uma constatação surpreendentemente simples do mecanismo que mais tarde se tornou conhecido como “identificação projetiva”. Com esse artifício, o indivíduo se apodera das qualidades invejadas na outra pessoa e projeta nela os seus sentimentos indesejáveis. A criança se coloca acima do pai pondo-se de pé num móvel mais alto, por exemplo, e lhe dizendo que ele é pequeno e não sabe de nada. Abraham, como o humor que torna as suas obras tão interessantes, descreveu um neurótico obsessivo que durante alguns meses se apegou à ideia de que sabia mais de psicanálise do que o próprio Abraham. Enfim, ele teve o bom senso de comentar: “Agora começo a perceber que você sabe um pouco sobre neurose obsessiva!

VI- KLEIN

Perto do fim da vida, Melanie Klein, como Freud, se convenceu da ubiqüidade da inveja e escreveu sobre ela no seu ensaio essencial “Inveja e Gratidão”. Ela considerava a inveja uma manifestação da pulsão de morte, conceito que era objeto de polêmica acirrada entre os psicanalistas. Quer se acredite na existência da uma pulsão de morte em si, quer se pense que existam forças destrutivas na natureza humana, a inveja é indubitavelmente uma expressão delas. Isso se deve à investida da inveja contra a bondade e, assim, contra a própria vida. Klein foi ao cerne da questão: “A capacidade de dar e de preservar a vida é tida como a maior das dádivas, e, portanto a criatividade se torna a causa mais forte da inveja”. Ela suponha que a inveja se dirigisse para a mãe como fonte de vida e sustento, para as qualidades mentais e também para a capacidade física.

Klein afirmou que a paz de espírito de outra pessoa pode ser motivo de inveja. Ela mostra como “a felicidade, a dor e os conflitos [ que o paciente ] atravessa se contrapõem ao que ele acha ser a paz de espírito do analista – na verdade, a sanidade dele -, o que é um motivo especial de inveja”.

Uma paciente chegou a uma sessão da sua análise se queixando de que “tranquilidade mental” era o que ela mais desejava e não tinha. Então, passou a criticar num tom de censura e inveja algumas pessoas que a ajudavam. Ficou claro que ela não queria que essas pessoas nem a analista tivessem tranquilidade mental, mas se preocupassem com tudo que estivessem fazendo de errado. Quando, por meio da análise, a paciente percebeu que o que lhe provocava insatisfação era a sua dificuldade de aceitar ajuda e viver sem preocupação, ela ficou cada vez mais feliz e conseguiu esquecer algumas das suas queixas.

Melanie Klein, como Abraham, achava que a inveja estivesse presente já na primeira relação de dependência para com a mãe e o peito ou a mamadeira. Ela formulou a hipótese de que [...] o objeto bom primordial, o seio da mãe, constitui o núcleo do ego e contribui intensamente para o seu crescimento [...] todos os desejos instintivos [do bebê] e suas fantasias inconscientes atribuem ao seio qualidades que vão muito além do alimento que ele proporciona [...] [e] enriquecem de tal forma o objeto primordial que ele continua a ser o alicerce da esperança, da confiança e da crença na bondade.

Para evoluir a partir dessa base é necessário um trabalho emocional. Klein pressupôs que o bebê dividisse a princípio os sentimentos em bons e maus, idealizados e persecutórios. Os bebês oscilariam entre os estados de contentamento pleno e aflição e raiva intensas, e nós consideraríamos isso normal.

Aos poucos, pelo fato de a mãe assimilar os sentimentos intensos do bebê e ajudá-lo a suportá-los, os sentimentos positivos e negativos dele não precisam se manter tão separados. O bebê percebe que a mãe que ele odeia é também aquela que ele ama, e adquire a capacidade de tolerar sentimentos ambivalentes. Se a inveja interferir muito nessas fases iniciais, o objeto idealizado e depois bom não conseguirá se firmar na psique do bebê, que ficará confuso entre o bem e o mal. Klein supôs que isso constituísse a base dos estados de confusão. (essa ideia foi desenvolvida mais adiante por Herbert Rosenfeld).O bebê – ou, depois, a criança e o adulto – pode também ter dificuldades alimentares se imaginar que atacaram o seio invejado e o envenenaram. No futuro, essas fantasias iniciais podem prejudicar a confiança nas pessoas. Da mesma maneira, numa análise, [...] a inveja e as atitudes a que ela dá vazão interferem no crescimento do objeto bom na situação de transferência. Se, numa fase inicial, o alimento bom e o objeto primário bom não foram aceitos nem assimilados, isso se repete na transferência, prejudicando o andamento da análise.

Em outras palavras, o paciente sente dificuldade de digerir e assimilar a descoberta que a análise lhe proporciona.

O exemplo de uma análise pode esclarecer a ligação entre as perturbações concretas com o seio e as perturbações simbólicas com a criatividade e a realização. Uma jovem com um distúrbio alimentar grave e fobia social achava, apesar disso, que o seu maior problema fosse a dificuldade de se interessar pela vida. Ela tinha consciência suficiente para perceber que não era a falta de dinheiro ou de posses nem a sua saúde física que mais a incomodavam, mas a sua dificuldade de manter um interesse vivo nas pessoas e no que o mundo lhe oferecia.

Soube-se depois que o problema da jovem estava ligado às dificuldades alimentares e à fobia, uma vez que a suspeita da comida e das pessoas tinha a mesma origem. Sua primeira relação com uma fonte de alimento e de interesse e criatividade havia sido destruída pela inveja, de modo que ela não podia se apoiar num objeto bom interno para confiar nas fontes de alimento ou nas fontes de contato e interesse humano.

No entanto, o fato de a paciente ter-se agarrado ao desejo de se interessar pela vida a ajudou muito. Deu-lhe motivação para mudar e contribuiu para que ela saísse do isolamento e convivesse com os outros. Para tanto, foi necessário enfrentar na análise um lado seu invejoso que prejudicava a sua capacidade de se interessar e ter prazer e atacava a competência da analista para ajudá-la. Quando conseguiu manter o interesse e o envolvimento, ela ficou feliz com a análise e com a própria vida.

Poderíamos perguntar: “Por que alguém se voltaria contra o seu potencial?” Lembre-se de que é impossível atacar a pessoa que tem o que se quer sem atacar também a capacidade de se relacionar com essa pessoa e de aceitar o que venha dela – que são faculdades importantes. O bebê que precisa esperar pela mamada e depois se afasta do seio ou a criança que está zangada com a mãe porque esta dá atenção aos outros ou a si mesma acaba sentindo que o que a mãe dá não é bom. Isso também prejudica o seu afeto e a sua capacidade de desfrutar o que a mãe pode dar e de sentir grato por isso.

Klein escreveu apaixonadamente sobre as vicissitudes da inveja e a importância da gratidão, do amor e do prazer quando esses efeitos nocivos são enfrentados. Ela afirmou que, se o bebê tivesse experiências plenamente satisfatórias nos primeiros meses de vida, se formaria uma base de gratidão capaz de diminuir a inveja e destrutividade. Então se estabeleceria uma figura interna boa, “que ama e protege o eu e é amada e protegida pelo eu”.


VII- INVEJA NA INFÂNCIA

As emoções associadas ao seio e à mãe também são sentidas pelo pai, pelos pais como casal e por outros bebês, reais ou imaginários. Todo novo relacionamento traz sentimentos antigos que serão reelaborados de um modo diferente e com uma pessoa diferente, para que, se certas propensões se firmarem na primeira relação, existam oportunidades de aprimoramento. A relação diferente com o pai pode às vezes tornar a inveja menos intensa do que com a mãe, ou o pai pode ajudar a lidar com a inveja. Foi o que aconteceu com o menino citado, que queria ser a sua mãe quando ela tece outro bebê.

No entanto, não só a mãe e o pai são invejados, mas também o elo entre eles. Quando o bebê se dá conta de que os pais têm uma relação própria, diferente, é provável que ele tenha vários sentimentos: interesses, animação e segurança com o fato de que a vida prossegue independentemente dele. Os bebês e as crianças pequenas costumam brincar alegres se há gente por perto conversando. Às vezes, porém, eles sentem inveja e ciúme e se ressentem do fato de que os pais não existem exclusivamente para eles. Em certo momento do desenvolvimento da criança, ela costuma interromper aos gritos a conversa dos pais por querer participar.

Do mesmo modo, a dificuldade de dormir e o desejo de ficar entre os pais na cama podem resultar da inveja da criança do relacionamento sexual dos pais, porque ela, embora não conheça o sexo da perspectiva dos adultos, percebe um aspecto excitante e importante da relação de que a excluem. Por isso a criança às vezes tenta atrapalhar o relacionamento do casal.

A inveja, apesar de evidente nessas primeiras relações, também se insinua em situações novas e reacende conflitos antigos. Ressaltei que a inveja é mais perceptível num relacionamento de dependência. Ela também é motivada por mudanças, que geram insegurança e a sensação de que alguém está em melhor posição. Principalmente as novas fases do desenvolvimento costumam desencadear inveja: o desmame, outro irmão, a entrada na escola e a saída de casa podem provocar ciúme e inveja daquilo que se deixou para trás e do fato de que outro, na realidade ou na fantasia, ocupa o lugar anterior. Temos de perceber uma vez mais que o mundo não gira à nossa volta, que na verdade o seio ou a mãe, a situação de que nos afastamos, pode perfeitamente ter vida própria sem nós e ser uma fonte independente de alimento e apoio – a outra pessoa. Existe ainda a inveja daqueles que se firmaram e são mais bem-sucedidos na nova fase.

Quanto mais satisfeito o indivíduo tiver sido na fase anterior, maior a possibilidade de ele se libertar e passar para a próxima fase sem grande ressentimento. Mas, se houve pouca satisfação, torna-se difícil se libertar das prerrogativas de uma fase e passar para a seguinte. A criança talvez se recuse a andar, pois isso implica não ser mais levada no colo, ou a aprender a falar, que significa claramente ter uma mente separada da mente da mãe. Se a inveja é excessiva, a experiência de desenvolvimento pode ser amarga e a mágoa prevalece. A choraminga e as queixas às vezes mascaram a inveja que a criança tem da mãe que não se dedica exclusivamente a ela e o ciúme dos outros que recebem a atenção da mãe. Em situações como essa, a inveja se confunde com o ciúme, mas a intensidade da amargura ou do ressentimento dá uma ideia de quanta inveja existe por trás das reclamações.

A inveja às vezes é disfarçada se o bebê, ou o lado infantil do adulto, sentir que domina a a fonte de alimento a ponto de não reconhecer a existência de outra. A criança ou o adulto que repetem uma grande descoberta como se fosse exclusiva podem ser comparados ao bebê que acha que o seio é só dele.

VIII- INVEJA NA ADOLESCÊNCIA

A adolescência é um período em que a inveja se intensifica, pois o adolescente precisa enfrentar a insegurança e a incerteza com o futuro e com a sua identidade ainda em desenvolvimento. O trabalho e as relações sexuais, até essa altura prerrogativas dos adultos, podem ser almejados, mas ainda assim difíceis de conquistar.

O adolescente talvez inveje aqueles que sabem o que fazem na vida ou têm meios e capacidade para tanto. Talvez inveje os que estão empregados ou tiram notas boas nas provas, ou os que têm um relacionamento sexual estável. Todavia, é mais claro que nunca que o que ele fará da própria vida cabe somente a ele, perspectiva que pode ser assustadora. Na pior das hipóteses, o adolescente se refugia no ceticismo quanto aos valores, ao trabalho e às relações dos adultos – o que talvez denuncie uma inveja das coisas que parecem difíceis de conseguir. O adolescente se recusa a estudar, a conseguir um emprego, a ajudar em casa, achando insuportável não ter imediatamente as pretensas realizações da vida adulta.

Nessa faixa etária, as pessoas são especialistas em causar inveja nos outros. As meninas e, cada vez mais, os meninos usam as roupas e a aparência para transmitir inveja aos amigos, certos de que estão “numa boa”. Estar “numa boa” é dar a impressão de não estar angustiado, de não ser afetado pela ansiedade e pela agitação dos amigos e, claro, deles mesmos. Assim, a inveja projetada é a inveja de um estado de espírito despreocupado, em que o adolescente não se sente na turbulência inevitável da idade. A inveja do adolescente quase sempre está acompanhada da insegurança e é um denominador comum a todos. Nem sempre é um traço de personalidade permanente e talvez diminua à medida que o adolescente se senta mais seguro de si. No entanto, se a inveja foi um problema sério na infância, ela é bem mais arraigada no adolescente.

Uma jovem que, quando pequena, invejava demais a mãe tentou controlar a inveja sendo muito competitiva e aplicada e transferindo-a para os irmãos mais novos. Na adolescência, ela não conseguiu manter essa conduta e desistiu de tudo, ausentando-se de casa e da escola e rejeitando todas as tentativas de ajudá-la. Tornou-se promíscua e perdeu as esperanças em si mesma e no futuro. Viu-se diante da inveja das realizações e da sexualidade dos adultos, que ela negara por tanto tempo, o que a fez se afastar do que ela gostaria de realizar. A jovem acabou fazendo terapia e conseguiu enfrentar a inveja que a impedia de viver a vida.

IX- INVEJA NA VIDA ADULTA

Na maturidade, assim como na infância e na adolescência, a inveja que foi descontrolada numa fase inicial reaparece nos momentos de tensão e precisa ser superada para que haja criatividade e otimismo. Os momentos de tensão são as épocas difíceis (doenças ou adversidades) e as de mudanças ou de desafio.


Um paciente que tentava conseguir emprego numa firma sonhou que tinha uma cicatriz no ombro que reabriu em um ponto, que estava então recoberto por uma cicatriz parecida. Ele disse que o sonho o lembrou de que ele costumava enfrentar situações novas( como mudar de escola). Como esse paciente tinha ficado muito irritado com o nascimento dos irmãos – o primeiro “grupo novo de pessoas” da sua vida -, a inveja e o ciúme da infância reapareciam em situações novas. Ele enfrentara o problema do nascimento dos irmãos mostrando-se ressentido e inacessível.

As situações novas realmente fazem aflorar cicatrizes e sentimentos antigos, que precisam ser superados de novo. No entanto, as experiências novas também proporcionam a possibilidade de mudança ou de aturar melhor os antigos sentimentos primitivos. O sujeito ressentido do caso citado acima usou a descoberta feita nas análise para se tornar mais comunicativo e dar mais de si no trabalho e nos relacionamentos e aproveitá-lo melhor.

Se a inveja predominou em situações anteriores, ela reaparecerá nos momentos de mudança. Quando envelhecem, as pessoas costumam ter alguma inveja da geração mais nova e do futuro que ela tem pela frente. A aflição provocada pela inveja e pela perda pode ser compensada no prazer com a vida dos outros e na gratidão para com a vida que os próprios idosos tiveram. Todavia, a inveja, se for muito intensa, pode levar à crítica aos “jovens de hoje” – uma inveja disfarçada de desaprovação.

Milton falou do “tempo, o ladrão sutil da juventude”, e a devastação provocada pelo tempo pode mesmo parecer um roubo por inveja. Quando chegam à velhice, os mais idosos se convencem de que as coisas estão sendo roubadas deles – o seu dinheiro ou os seus objetos queridos, por exemplo. Às vezes pode ser uma expressão concreta da sensação de que as suas faculdades, a sua riqueza interior, as coisas valiosas que eles têm por dentro, por assim dizer, estão sendo roubadas por alguém que inveja o seu tesouro psíquico e as suas aptidões. Na velhice, a personalidade tende a se fragmentar quando é grande a perda da memória ou de outras faculdades mentais, e então se pode sentir de verdade que a inveja vem de fora.

Em qualquer idade, é doloroso se conscientizar da própria inveja, tanto que sempre tentamos desmenti-la. Uma as melhores maneiras de tentar se livrar da inveja é a “ troca de papéis” citada por Abraham. Anos depois, essa troca foi chamada por Melaine Klein de identificação projetiva, que se tornou um dos conceitos fundamentais da psicanálise contemporânea, muito comentado e muito debatido. È uma maneira de nos livramos dos sentimentos indesejáveis e tentar dominar os sentimentos que queremos ter.

Quando procuramos nos livrar da inveja, nós a projetamos em outra pessoa, enfatizando sutilmente as falhas dela e apontando para a nossa pretensa superioridade.

O elementos da caricatura sempre abre o jogo e revela o caráter da inveja por trás dele, pois as qualidades admiráveis e invejadas passaram a ser menos admiráveis e ganharam um traço desagradável. Às vezes talvez exista um pingo de verdade num aspecto da caricatura, pois a inveja pode apontar com precisão as fraquezas e exagerá-las, em detrimento da pessoa ou da qualidade admirada.

Como esse processo é quase sempre inconsciente, o indivíduo sente um grande incômodo quando se dá conta do que tem feito e admite a inveja que ele tentou negar. No entanto, existem outras pessoas bem conscientes da própria inveja que parecem não ter remorsos dos seus ataques de inveja. Obviamente, é bem mais difícil lidar com pessoas assim, uma vez que elas são incapazes de sentir culpa ou compaixão, que podem levar à mudança, ou pelo menos a vontade de não prejudicar os outros com a sua inveja. Às vezes se vê que a capacidade de se arrepender e de se preocupar foi projetada em terceiros, como parentes ou autoridades. Em outros casos parece que a capacidade de se preocupar foi reprimida na origem. Inserem-se nesses exemplos os psicopatas cruéis ou os violentadores, que são incapazes de ter compaixão pelas vítimas. Eles manipulam os sentimentos de outras pessoas para acabar com a vida delas.

X- IAGO

Um vilão desse tipo notório na literatura é o Iago da pela Otelo, de Shakespeare. Iago é motivado pela inveja implacável que ele sente por Otelo, o Mouro, e pela nova mulher deste, Desdêmona. Eles se casaram em segredo, pois o pai de Desdêmona nunca teria permitido um casamento inter-racial, embora seja um casamento de amor e respeito mútuo. Iago tem outras mágoas: sua substituição por Cássio na promoção a lugar-tenente de Otelo e o ressentimento por não mais receber dinheiro de Rodrigo, que o pagava para ser intermediário entre ele e Desdêmona, agora obviamente comprometida. Iago ainda suspeita (talvez sem fundamento) que Otelo tece um caso com sua mulher, Emília.

Klein destacou que a paz de espírito é uma das qualidades mais invejadas. Outras são a bondade e a inocência – a inexistência de inveja. Iago não consegue suportar essas qualidades nem em Otelo nem em Desdêmona, e seus planos visam à destruição da bondade e da inocência dela.

Ao contrário de outros vilões de Shakespeare, Iago não mostra remorso em momento algum, embora Otelo demonstre um pesar condoído pelo desastre do seu amor.

Iago é perito em usar a inveja para manipular: sabe exatamente como seduzir o adversário e o faz sem remorso. Ele vai além do que sabe da sexualidade do casal.

XI-A TENTATIVA DE IGNORAR A INVEJA

A inveja costuma enfraquecer os sentimentos bons sem que o invejoso se dê conta. È esse caráter oculto que pode fazer a inveja tão difícil de controlar e tão perniciosa. Ela é como uma cobra do mato, o inimigo oculto que se infiltra sem ser visto. Temos muitas maneiras de ignorar a nossa inveja, que pode ser projetada – por exemplo, quando alguém ostenta o que possui ou os seus atributos a fim de provocar inveja.

Quando eu disse a uma paciente minha que teria de interromper a análise dela por um tempo ( o que é incomum), ela reagiu dizendo que também não poderia vir a uma sessão. Declarou então que estava furiosa porque uns amigos tinham marcado primeiro a data de uma festinha, o que tinha diminuído a sua vontade de dar a festa. Pareceu que a paciente tinhas interpretado a minha ausência futura como se eu tivesse “marcado primeiro” as minhas datas. Como se eu fosse oferecer uma festa que eclipsaria a dela. O acerto de datas pareceu provocar nela inveja e competição e um desejo de transmitir a inveja a mim.

Ela tinha tido vários irmãos mais novos e se lembrava de que, assim que começava a se conformar com o nascimento de um, a mãe anunciava uma nova gravidez, e a raiva e a inveja dela reacendiam.

Se, no entanto, a pessoa projeta a inveja tão bem a ponto de temer a inveja dos outros, ela pode, em vez de ostentar o que tem, cair no extremo oposto e se calar. Ela talvez se vista mal ou se deprecie de outras maneiras, para que ninguém inveje essa pobre coitada. As crianças dizem frequentemente que não estudam para as provas, que não são nada boas em certas coisas, para que ninguém as critique por estudarem demais ou pelas suas conquistas.

O medo do sucesso é idêntico ao medo do fracasso, pois o sucesso pode gerar o medo da inveja, real ou imaginada. Os estudantes que procuram ajuda para as provas finais temem tanto o sucesso quanto o fracasso. O sucesso quase sempre atrai a inveja de outras pessoas, como no caso do sujeito que obtém um primeiro lugar, consegue um emprego difícil e se destaca. Mas, se o medo da inveja for paralisante, é bem provável que os sentimentos projetados pelo indivíduo contribuam para isso.

Outra manobra evasiva consiste em projetar nos outros a parte responsável e interessada da personalidade, de modo que o indivíduo não sinta arrependimento da sua inveja. Isso ocorre com delinquentes juvenis, que podem investir por inveja contra bens materiais e pessoas. Os adultos assumem por algum tempo a parte responsável do adolescente, na esperança de encontrar uma maneira de devolvê-la a ele e fazê-lo voltar a ter senso de responsabilidade e sentimento de culpa, que o levaria a refrear os seus sentimentos e dar valor à vida dos outros.

Falei da projeção da inveja, por um lado, e da projeção da culpa e da responsabilidade, por outro. A ocorrência simultânea desses dois sentimentos – inveja e culpa – é que pode ser muito dolorosa. Às vezes, tão dolorosa ou tão temida que a pessoa se torna insensível para evitar a dor ou o desespero decorrentes do dano provocado por sua inveja. Pode-se chegar perto do remorso, sentir a dor da culpa e depois recuar, achando que o dano é grande demais para ser enfrentado. Então o indivíduo divide os seus sentimentos, livrando-se da inveja ou da preocupação, a fim de não ter o sentimento incômodo causado pela consciência das duas.

Claro que quase sempre não temos consciência de que renegamos os sentimentos dessa maneira. Na psicanálise, pode surgir uma oportunidade para reaver aspectos nossos que negamos involuntariamente. O restabelecimento dos aspectos indesejáveis do eu, além de doloroso, pode trazer uma boa dose de verdade, que talvez pareça mais significativa que a dor do recolhimento. Klein discorreu sobre a sensação de choque que se tem quando duas partes separadas do eu se juntam. Ela supôs que esse choque pudesse ser “O resultado de um passo importante para a cura da cisão das partes do eu”.


XII- INVEJA E A RELAÇÃO PSICANALÍTICA

A inveja sempre se manifesta na análise na forma de um retrocesso exatamente quando já se fez algum progresso. Isso é tão comum que ganhou o nome de “reação terapêutica negativa”.

Em muitos dos exemplos apresentados, é evidente a presença da inveja. Frequentemente, porém, ela é sentida de um modo mais insidioso, contagiando o ambiente gradativamente. O analista pode notar que a análise não está levando a lugar nenhum, que o seu trabalho não é satisfatório, e acabar concluindo que predominou nas sessões uma sensação latente de futilidade. Com o tempo, torna-se claro que o paciente não quer que a análise tenha sucesso nem dar ao analista o prazer de vê-lo mudar. Esse veneno lento é o lado sutil da inveja, e a dúvida que ela cria é uma das suas marcas registradas.

Isso não quer dizer que a dúvida seja sempre causada pela infiltração da inveja! O analista pode errar e precisa questionar sempre onde se encontra o problema. No entanto, a dúvida provocada pela inveja faz o analista achar que não pode confiar em si nem no seu discernimento. Seu mundo interior é atacado dissimuladamente, pois a inveja visa destruir as próprias qualidades que a pessoa invejosa deveria, ao contrário, valorizar e usufruir. O discernimento do analista é posto em xeque. Só conscientizado desse processo o analista consegue levar a análise adiante e retomar o contato com o lado construtivo do paciente, também enfraquecido.

A dúvida crônica no discernimento individual pode resultar de um ataque de inveja. Nos casos de psicose borderline, é possível que exista uma parte invejosa que investe contra o discernimento do paciente e, no fim, contra o seu senso de realidade. O analista também sente esse ataque ao discernimento.


XIII-O QUE PROVOCA INVEJA ?

Ao lidar com a inveja na análise ou em outra relação, há um vaivém inevitável entre as forças da criatividade e da vida e as da inveja e da destrutividade. Nem sempre é fácil saber onde essas forças se localizam, pois sempre há duas pessoas envolvidas. Existe uma probabilidade bem maior de a inveja aparecer em certos tipos de relacionamento, o que levanta a questão de como as coisas são dadas e como são recebidas. Se aquele que dá gosta de fazê-lo e não está tentando diminuir o que recebe, este pode ser capaz de aceitar com gratidão o que se oferece e ter a vontade de fazer o mesmo, dando algo em troca. Se, por outro lado, aquele que dá não demonstra prazer nisso, ou parece dar só para se sentir bem e não por estar realmente interessado no recebedor, este se sente magoado e talvez invejoso: não lhe dão espontaneamente e, assim, ele não pode desfrutar o que lhe oferecem. È importante que o indivíduo que dá sinta felicidade com o prazer daquele que recebe e se interesse pelo que este faz com o presente. Se o que dá não suporta ganhar nada em troca, torna-se mais difícil receber o presente e mais provável haver uma reação de inveja.

Como vimos, a inveja pode ser estimulada inconscientemente, e portanto é sempre importante estar atento ao que acontece nos dois lados da relação em que ala surge. Alguns dos exemplos que dei podem ser vistos de ângulos diferentes: muito provavelmente, o pai que contou ao filho certos detalhes da procriação estimulou de algum modo a inveja do filho, ou quem sabe a analista tenha avisado com uma ponta de provocação que se ausentaria em determinada data. Talvez a inveja de Iago tenha sido motivada pelo tratamento indiferente que Otelo lhe deu e pelo relacionamento inacreditável deste com Desdêmona.

Se aquele que dá consegue transmitir que não se considera perfeito, é mais provável que o recebedor note o espírito humano existente, o que torna mais fácil aceitar o que se deu e enfrentar qualquer inveja que ele sinta. Isso nos leva à questão da inveja na sociedade.

XIV – INVEJA E SOCIEDADE

Ao pensar em sociedade, é essencial, em primeiro lugar, distinguir a inveja motivada por privação ou desigualdade da inveja descrita na maior parte deste livro, relativa à intolerância à diferença.

Tem-se usado o termo “políticas de inveja” como justificativa das enormes desigualdades de riqueza e privilégios, como se os menos privilegiados devessem se esforçar para não ter inveja. Onde existem desigualdades gritantes há inveja, que, contudo, pode ser causada mais por privação do que por dificuldades individuais para tolerar a felicidade dos outros. Por exemplo, o vandalismo é de certa maneira uma manifestação de inveja provocada por desigualdades sociais flagrantes, e não simplesmente um problema da destrutividade de vândalos individualizados. Há ainda a questão de por que algumas pessoas recorrem ao vandalismo, outras procuram emprego e outras tentam mudar a sociedade.

O problema da inveja na sociedade diz respeito a uma mistura de fatores pessoais e sociais. Esses fatores são concreto e psicológicos: o vândalo adolescente talvez não tenha emprego nem perspectiva de trabalho ou de escolaridade maior; ou ele pode ser um garoto desajustado que tem boas oportunidades de estudo, mas acha que recebe uma educação padronizada que não lhe dá espaço como indivíduo, tanto pelo que ele tenha para oferecer como por suas limitações. Existe também aí a questão de ele já ser invejoso e dos fatores que contribuíram para isso na sua infância e no seu temperamento. Portanto, os ataques de inveja a bens materiais podem ser tão complexos quanto a própria sociedade.

Entretanto, pode-se constatar na sociedade certos ataques por inveja que não parecem ter relação com a injustiça social. Veja os hackers da internet, por exemplo: são inteligentes e têm o conhecimento e os computadores necessários para sabotar a comunicação entre outras pessoas. O objetivo deles é disseminar a destruição arbitrariamente, só por prazer. Faz lembrar uma versão muito mais destrutiva da criança que insiste em interromper a conversa dos pais. O hacker quer danificar o equipamento de modo que nenhuma comunicação seja possível, e o prazer dele se encontra no saque invejoso e na satisfação de vencer o sistema.

As manifestações sociais de inveja não se restringem de forma alguma a atividades criminosas. Existem várias maneiras de expressar inveja na sociedade. Por meio da mídia e de outras instituições como times de futebol, as empresas de música e de cinema, nós elevamos as celebridades a graus invejáveis de riqueza e fascínio depois tentamos destruí-las com fofocas e escândalos e tirando-lhe a privacidade – uma intrusão invejosa em vidas que ajudamos a construir.

Permitimos que os publicitários provoquem a ganância e o desejo de bens materiais, de artigos da moda a carros chiques. Pode-se argumentar que a publicidade incentiva a imitação, mas quase sempre parece se tratar de uma imitação fundada na insatisfação com nós mesmos e com a nossa imagem produzida pelo comércio, um ataque invejoso à nossa auto-estima e a outros valores. Isso nos leva à necessidade de comprar determinada coisa para nos sentimos valorizados, em vez de dar valor ao que já temos ou no atermos ao interesse e ao envolvimento naquilo que está além de nós e das poses materiais.

A desigualdade de riqueza e de oportunidades na sociedade e entre as sociedades costuma provocar inveja nas pessoas e nas comunidades desprovidas, e culpa e negação nas abastadas. A onipresença da televisão, com programas e anúncios em que a propaganda impera, também aumenta a inveja nas regiões em que a maioria dos produtos comerciais é inalcançável por causa da pobreza.

Outra manifestação social da inveja que eu gostaria de enfocar é a existente na discriminação de grupos humanos diferentes do nosso. As diversas divisões da sociedade podem levar à suspeita e à desconfiança deles. Isso nos faz voltar à inveja destrutiva que se deve não só à privação ou à competição por recursos, mas ao fato de ser difícil de aceitar o que as outras pessoas têm para oferecer. È mais fácil desmerecer um grupo diferente do nosso e procurar falhas neles do que sermos receptivos ao novo. O preconceito consiste principalmente na projeção de sentimentos indesejáveis em grupos ou indivíduos. Podemos tentar rejeitar os nossos traços negativos em vez de sermos capazes de suportar o fato de que outro grupo tem características que não temos e de aceitar em usufruir a riqueza e a diversidade da diferença.

XV- CONCLUINDO

Nessa altura, parece apropriado voltar a Chaucer: “Decerto, então, o amor é o remédio que purga o coração do homem do veneno da inveja”.

Chaucer refere-se à dor do reconhecimento da inveja e da tentativa de remediar e afirma que é a capacidade de amar que permite vencer a inveja. O reconhecimento da inveja e a preocupação com os seus efeitos na vida coletiva e individual é uma manifestação de amor, no sentido de proteger aqueles que seriam prejudicados pela inveja. Ou, se o mal já aconteceu, o reconhecimento pode levar à reparação e à reconciliação. Desde que se consiga assumir a responsabilidade pela própria inveja, pode-se iniciar um ciclo benéfico, em que a amargura e a culpa dêem lugar ao prazer, à gratidão e à conscientização de que a outra pessoa ou coletividade têm oferecido algo que era difícil aceitar. A gratidão, o alívio proporcionado pela preocupação com outra pessoa e o prazer com o que essa pessoa tem para dar servem para contrabalancear os efeitos nocivos da inveja. Seria correto dizer que o ruim da inveja é o fato de que ela investe contra a bondade; o bom de saber enfrentar a inveja é que a bondade pode ser apreciada e desfrutada.

2 comentários:

Deixo aqui minha manifestação de alegria por um estudo de tamanha profundidade.Que sentimento, sutil, mesquinho e avassalador. Que o Senhor possa ter misericórdia de nossas vidas e nos libertar desse sentimento tão perverso. Paabén pela postagem.

Missionários Eliane e Antonio Almeida.